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terça-feira, 22 de maio de 2012

as quatro estações



o ipê, amarelo...
a peça em curso no palco
a cor no roupeiro

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vento intransitivo
recusa por complemento
a sauna do quarto

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as unhas dos dedos
no lixeiro

as folhas dos galhos no juazeiro

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cabelos em pé
(o vento em volta do fogo)
na espiga de milho

quinta-feira, 10 de maio de 2012

o exílio de linski








Há quinze dias recebi a correspondência de Linski. Breves palavras preenchiam o pequeno pedaço de papel. Escreveu como se estivesse com pressa. Dizia: "Chegarei ao meio-dia. Teremos tempo". Minhas mãos tremiam enquanto eu observava aquelas palavrinhas que, por muitos dias, tentei analisar. O manuscrito se tornara gasto de tanto que eu o abria e o fechava. Cheguei a colocá-lo na porta da geladeira preso por quatro imãs em forma de maçã. E, sempre que eu passava pela cozinha, eu lia e relia e parecia estar ouvindo a voz de Linski. Eu repetia em voz alta o que ele havia escrito. Ah, como me senti imponente. Então chovia e era sol. O dia estava maravilhosamente combinativo ao meu estado de espírito. Desde que recebera a correspondência, planejei todo o trajeto deste dia que é hoje. Mudei os móveis de lugar. Comprei livros. Arrumei a velha escrivaninha onde Linski costumava passar horas deleitando-se em palavras. Era meu triunfo vê-lo sentado debruçado sobre seus papéis. Era seu estado criativo, costumava dizer. "Há horas em que preciso ficar sozinho". Ele me dizia todas as coisas em seu tom imperativo. Eu o servia de chá e café. Fazia de tudo para que nada perturbasse o silêncio de Linski. E agora ele está de volta. Quantas horas irá ficar? Suspiro. Meu êxtase é imenso e sinto-me invencível. Posso sorrir. A bem da verdade, desde que recebi a correspondência, um alardeante sorriso movimenta minha face. Decidi não esconder minha alegria. Afinal, chegara o tempo de rever Linski e eu precisava celebrar sua companhia. Era como se ele já estivesse aqui. Há quinze dias. Desde que Linski mandou-me dizer que estaria comigo, sinto sua presença. Ele está nos quadros, nas fotografias, em seu armário por tempos vazio. Ele ocupa o quarto, a cama e os lençóis exalam o aroma de Linski. Ele está mais presente que nunca. E hoje conversaremos. Ensaiei todo meu discurso. Preciso lembrar que devo agir de forma gentil e sorrir discretamente. Linski não suporta comportamentos estrondosos. Mostrarei as mudanças que fiz na casa, a tapeçaria, e não falarei a respeito de Vilma. Nada irei alarmar. Linski provavelmente irá me contar de sua vida e eu ouvirei com distinta atenção. Não usarei interjeições ou gafes exclamativas. Sequer demonstrarei surpresa. Meu porte será de um ligeiro interesse como se eu houvesse mudado meu hábito de idolatria. Estarei fervendo por dentro. Tenho certeza disso. Abortarei alegrias e atitudes furtivas por revê-lo. Poderia abraçá-lo ao invés de manter o recato que silencia prisioneiros. Eu poderia fazer soarem trombetas angelicais à chegada de deus. Tomaríamos vinho tinto e logo estaríamos rindo espalhafatosamente, Linski. Ah, como seria bom retê-lo desta forma. Mas devo exercer neutralidade. Fingirei não ter vida. E, agora que aguardo a chegada de Linski, algo toma o lugar de minha atitude centrada. Por que não posso celebrar em uivos a chegada de Linski? Por que não posso deixar a louca rebeldia dos contentes tomar conta de mim? Por que não me desmantelar em efusivo estado de alforria? Por que não o afago de saudade? Por que devo comportar-me em retidão? Linski me desalinhou de meus desejos. Ele me entortou a vida e agora retorna grandioso esperando que eu finja discernimento justo quando me irradia a ansiosa liberdade de um largo sorriso. Não. Definitivamente não. Ele não fará isso comigo. Por anos eu caminhei na ponta dos pés para não incomodar o exílio de Linski. Agora que o tempo engoliu meu obrigatório comportamento de lealdade, por que devo me privar de viver o que sinto? Quem você pensa que é, Linski? Deus? Imperador? Um ditador em supremacia? A cólera me invade e rasgo em filetes de indignidade a correspondência de Linski. Não serei mais o bicho coagido. Vê? Liberei de mim as amarras dos acorrentados anos às suas ordens. Sou outra pessoa, Linski. Não o quero em minha casa. Eu preciso sorrir.

E, ao meio dia, a campainha anuncia a chegada de Linski. Ninguém o recebe à porta. Ele não entende. Deveria ser recebido. Insiste algumas vezes mais e, contido em seu comedido modo perfeito, Linski retorna à rua e volta ao esquecimento. Ergo uma taça de vinho, brindo meus arroubos de euforia e não me arrependo por não tê-lo visto. Linski não faz mais sentido.





quinta-feira, 26 de abril de 2012

PRA QUANDO FOR A MINHA VEZ


Insensatez

Meus sonhos são de bolso
E cabem numa estante qualquer,
Onde a minha loucura se concretiza,
E a minha poesia é toda insensatez.

Mirtes Waleska Sulpino

segunda-feira, 23 de abril de 2012

PARA ESSA SEMANA

hey, guys, desculpa a demora

****

ruído inglês

habito as alamedas do pecado
em minhas veias corre a humanidade
sigo sozinho, mesmo acompanhado
dos brutos e da mais febril verdade.

em mim não me restou nem a saudade.
sou como um sentimento naufragado,
um bêbado no centro da cidade,
uns esboços de vida, um rabiscado.

porém, tenho a certeza do meu lado:
aqueles que me olham com maldade,
julgando o que não deve ser julgado,
hão-de pagar com o amargor da idade.

quem não faz do poema seu amado
não sabe da poesia nem metade.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

para quando chegar minha vez

O ENGENHO

Na esterilidade do cansaço
A febre do desânimo me afronta.
Reflete no octógono do destino
Uma angústia milenária que se afoita.

Na linha férrea do meu traço
A humanidade se amedronta,
Pois só no brejo Nordestino,
O incoercível se açoita.

Carrego 200 litros de vinagre,
Dói-me o dorso cerebral.
A indiferença é o milagre
De uma sonata universal.

E a essa hora, quando a flecha beija o arco,
Quando o crepúsculo me acalma,
Sinto a brisa do Pau D’arco
Pentear as tranças da minh’alma.


ÓPIO

Outro lugar
Os ventos que movem os moinhos
Brisas de um verão fora de estação.

Correríamos em campos rosais
Mato raso
Sem espinhos
Quixote quisera ser assim:
Tragaríamos os goles do ópio
E dormiríamos eternamente.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Setenta mil golpes na sua cabeça


Por Bruno R. R. Santos

“And either way you turn
I'll be there
Open up your skull
I'll be there
Climbing up the walls”

Radiohead, Climbing Up The Walls

Amor, você lembra o dia que cheirei seu cabelo, cê lembra? Eu passei por você naquele ônibus lotado, seus olhos nem repararam, mas eu cheirei que até tremi as pernas. Amor, não pense que é saudade, sei que você se mudou, sei que sua casa tem vigilância 24 horas e tem aqueles porteiros crioulos de 2 metros de altura, mas amor se liga: eu te amo, porra. Aquele dia em que estávamos na boate, nós dançamos ao som do Depeche e Moby, se liga nesse dia? Quando a lua brilhava tanto que o LSD fez a gente ver o Sinatra saltando na chuva fina. Não quero te ver assim, cheia de medo e nóia, saca? A verdade é que meu peito ainda dói quando me lembro daquela facada que a senhorita me deu, lembra? Doeu pra cacete, vagabunda.

Não quis te xingar.
Podemos ser amigos ainda.
Amigos até morrermos, o que acha?
Eu cuido da sua casa, da sua avó doente.
Do seu papagaio José.

Eu posso guardar a fechadura, vigiar o negão de 2 metros, afinal, confiar em negro é demais.

Posso pentear seus cabelos enquanto você tira aquele cochilo depois do almoço.

Não importa aonde você vá, céu ou inferno, Babel ou Atlântica. Eu estarei lá. Vigiando seu corpo bronzeado, aparando os pelos escuros, alisando sua mão sem sequer tocar na pele. Não importa a vigilância, eu tenho todas as chaves do mundo em mãos. Não importa os muros, se preciso meus dedos escalam o Monte Everest. Não importa o alarme, sou rápido como um puma, sagaz como a hiena. Não adianta pedir para a polícia passar pela vizinhança, não adianta pedir para o seu melhor amigo gay dormir com você, não adianta ter um Pit Bull com nome de Dentinho, não adianta dormir armada com a faca de cortar carne, não adianta ter o sono leve, não adianta se mudar para outro país, não adianta olhar para os lados enquanto vai fazer as compras do mês, não adianta trocar a fechadura todo dia, não adianta ter insônia, não adianta.

Só quero ser seu amigo agora, não entende?

Você não me conhece direito, mas eu sei quem é você. Eu anoto seus passos no meu caderno, eu te persigo desde que você nasceu. Quando eu tentei te beijar, sem maldade alguma, só para você experimentar o chiclete que eu estava mastigando, você quebrou meu nariz, sua puta. Quando entrei na sua casa antiga, eu só queria um café, nada demais, conversar sobre o mestrado em comunicação que você estava para fazer, sobre sua mãe doente, só conversar.

Daí você enfia a faca no meu peito.
Olha, assim fica complicado.
Estou tentando ser racional, sabe?

Na terceira e quarta vez você também não foi sensata. Os polícias também não foram.
Mas estou livre, já tenho tudo o que preciso para velar seu sono. Sua casa nova é linda. Esse país é perfeito. Você hein, sempre com um bom gosto admirável.

Podemos ser amigos, certo? Sem violência dessa vez, sua escrota.

Só aprenda uma coisa, sua cabeça é minha. Vou martelar ela com minha presença até o fim dos nossos corpos, quando estiveres enterrada, estarei lá, chupando as minhocas e vermes do seu couro cabeludo necrosado.

Não adianta virar para esquerda ou direita, não importa a direção, eu estarei lá. Abrindo seus órgãos, chupando sua vida, olhando dentro de ti e gritando que você é minha. Mastigando cada célula, cada partícula, cada doença.

Amigos para sempre.

Estou do seu lado, não está vendo, bela adormecida? Seu sono inquieto, aterrorizante. Provavelmente tendo um pesadelo. Tão linda com esses cachos caindo nos ombros nus.

Tão linda roncando.

Sem facas agora, baby.

Acho que fiz algum barulho, seus olhos estão se abrindo.

Perfeito.

“Que saudade. Pensei que não se lembraria mais de mim.”

Sua expressão de medo nunca mudou.

Tu és a mesma menininha que se assustava com os sons do bicho papão na infância.