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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A Ficção Científica, os Robôs e a Modernidade

A Ficção Científica, os Robôs e a Modernidade

- primeira parte -

Há que de alguns meses me debrucei sobre a coletânea de contos organizada pelo bioquímico Isaac Asimov, junto de Patricia S. Warrick e Martin H. Greenberg, intitulada Histórias de Robôs. De bolso, editada pela LM & Pocket, figuras conhecidas e outras não da ficção científica, das quais Arthur C. Clark, Philip K. Dick e talvez o próprio Asimov sejam os mais notórios entre os outros integrantes do time, que ainda se compõe de: Gordon Dickson, Murray Leinster, Poul Anderson, John Brunner e Harry Harrison. Ao palmilhar as pouco mais de duzentas páginas do livro, o sentimento é de empolgação, frieza, indiferença, ora ou outra rútilos de exuberância e criatividade. Mas, o que pretendo mesmo, no Volume 3 da coleção que então se encerra, prende-se nas palavras de Isaac Asimov no auto-explicativo prefácio ensaístico “Os Robôs, Os Computadores e O Medo”.
Frente ao tema, forte no imaginário social, algumas notas do próprio Asimov (2007) acerca do caráter mecânico da sociedade para a qual escreve:
“Mais estranha ainda é a tenaz oposição a qualquer modificação no teclado das máquinas de escrever, embora o padrão universal de hoje em dia seja um disparate criado pelo inventor do instrumento por motivos banais. O mais avançado dos computadores atuais (inclusive o que estou usando neste instante) emprega esse teclado. Na realidade, ele diminui a velocidade datilográfica por causa da utilização desproporcional das duas mãos, principalmente ao favorecer a maior aplicação da canhota num mundo em que noventa por cento da população é mais hábil com a direita.”
“Por que essa atitude refratária a mudanças?”
Okay, Houston, we have a problem. Asimov repreende o leitor com considerações acerca do processo lento de reeducação. Para ele, as pessoas adultas “gastam infinidades de horas para se habituar com polegadas e milhas, com os vinte e oito dias de fevereiro, com letras que não se pronunciam, em night e debt por exemplo, com exercícios de datilografia e sabe Deus mais o quê”. Algo de novo implicaria uma volta aos primevos anos da descoberta do fogo, na qual a humanidade sorria mediante uma fagulha iniciada por um raio e o subseqüente espraiamento pelo vento. Seria talvez como uma volta à estaca zero, com o medo de este fogo se elevar e o incêndio, então sucedido, seja a revolta dos deuses da modernidade contra a humanidade pagã. Trocando o fogo por palavras: correr o risco tão conhecido de a modernidade resultar em possíveis fracassos.
É do “espantoso mundo da antecipação” que Asimov fala aos contemporâneos e leitores de um ou cinco séculos adiante. Medrosos ou não. Enfatizando riscos, questões de ordem moral e ideológicas, há no correr do breve ensaio iniciador de Histórias de Robôs –Volume 3 – um questionamento acerca do impacto do progresso da robótica. Para além do discurso tecnófilo (como o próprio autor se define), reside escondido um foco nas questões sociais de recepção da obra, de inserção dos autores em uma modernidade incipiente, mas cujas fagulhas de silício nos microchips, robôs e computadores já se mostra alçada pelo vento sombrio da floresta. A ciência nunca foi, afinal, tão ambiciosa e nem ainda tão assustadora:
“Mas o que importa, afinal, não é o “robô”, que consiste no sistema de alavancas e articulações que executa a função, e sim o computador, que controla essa função, e sobretudo o microchip, que reduziu de tal forma as dimensões do computador a ponto de já se ver nele o futuro rival do cérebro humano, em matéria de condensação e versatilidade.”
“Temos que admitir que, pelo menos como concepção, o medo não deixa de ser justificado. Não há nenhum limite teórico visível para a complexidade e “inteligência” do computador. Nem motivos para supor que, devido a deficiências intrínsecas, seja incapaz de igualar e até superar o nível de atividade do cérebro humano.”
Esta longa história que perfaz os medos e receios das sociedades ao progresso tecnológico leva Asimov ao insight de um possível paralelo: a revolução industrial e o movimento luddista (manifestantes contra as máquinas que estariam ocupando o lugar dos homens) comparados à então crescente revolução técnica e científica experimentada, sobretudo, pelos Estados Unidos com o pós-guerra e a ascensão de duas potências bipolares, blocos capitalistas e blocos soviéticos. A conclusão é: um complexo de Frankenstein nos assola. Complexo no qual a perspectiva do monstro revoltado contra o criador, clássico da ficção científica escrito pelas mãos de Mary Shelley, revelaria o “complexo do Frankenstein”, destacado pelo próprio Asimov como a síndrome da tecnofobia. Ou seja, esta sensação chinfrim de o cérebro humano, composto de ácido nucléico e proteínas em meio aquoso, resultante de três bilhões e meio de anos de evolução biológica (baseada, como você sabe, em efeitos de mutação, seleção natural e outras influências) contra uma composição de interruptores eletrônicos e correntes elétricas em meio metálico, com apenas 40 anos de aperfeiçoamento da criação humana. Eis o computador.
Naturezas diferentes: é o que se espera de duas inteligências distintas (uma biológica, outra eletrônica), com vigorosas diferenças de estrutura, históricos, desenvolvimentos e objetivos. Mas, se Deus nos legou essa bela capacidade de sentir, aos computadores o opróbrio seria não calcular tão bem. Se avaliados pela capacidade de resolver problemas aritméticos mais rapidamente, e se tal tipo de habilidade servir de critério para avaliar a inteligência, tais computadores podem ser aclamados por sua superioridade intrínseca. Mas, estando exatamente as virtudes humanas nas blandícias do erro, mesmo frente a situações em que a “visão do todo”, a sensibilidade da perspicácia, a originalidade da criatividade e, sobretudo, uma intuição sugestiva são úteis para, por exemplo, decidir a pena criminal de um cidadão, os computadores são terrivelmente ignorantes. Ou algozes arbitrários. O certo, conforme reflete Asimov, é que preparamos os computadores para corrigir deficiências as quais seres humanos como eu ou você não contemplam em suas próprias qualidades. Ou seja, não há computadores intuitivos e criativos unicamente porque não se exige isso. Em um mundo funcional, com códigos e padrões pré-estabelecidos, os problemas são divididos em etapas claras e lógicas cujo único intento é vê-las cumpridas. A simples constatação de que entre um “Yes” e um “No” não há um “Maybe” (Talvez), um humano “talvez”, sugere uma instrumentalização da razão/racionalidade. E se há, conduz a situações na qual o “Yes” e o “No” voltam límpidos e risonhos.
É uma dúvida cruel:
“Para que se esforçar em levar os computadores a desenvolver uma capacidade tosca de serem criativos quando já dispomos do cérebro humano, que faz isso tão bem? Seria tão sábio e prático proceder desse jeito quanto propor-se a treinar determinados seres humanos para executarem rápidas proezas matemáticas segundo os moldes de um computador”
E até certo ponto uma angústia, auspício ou lamentação:
“Por outro lado, duas inteligências diferentes, especializando-se em objetivos diversos, cada qual com sua utilidade, podem, num relacionamento simbiótico, aprender a colaborar com a lei natural do Universo de forma mais eficiente do que separadamente. Encarado dessa forma, o robô-computador não nos substituirá, mas servirá de amigo e aliado na marcha para um futuro glorioso”
Mas, quando a tecnofobia asimoviana, além do medo de que o progresso tecnológico tire o emprego de muita gente ainda traz consigo uma criatura semiperfeita criada pelo homem, fica posta a dúvida: qual o limite real da inteligência humana? Afinal, uma criatura com braços e pernas, pele artificial e um conjunto de características que podem muitas vezes confundi-lo com um ser humano: como uma criação perfeita assim poderia vir do homem? Sob que auspícios? Condição única de coexistência entre seres humanos e robôs, Asimov desenvolve em seu livro Eu, Robô (o qual foi adaptado para o cinema) as três leis da robótica (vista também como uma saída para os muitos enredos repetitivos na ficção científica de homens e robôs):
• 1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
• 2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
• 3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.
Pseudo-humanos. A criação de um autômato, de um pseudo-ser humano, por um inventor também humano é, ainda, interpretada como paródia da criação da humanidade por Deus. Nas sociedades cristãs onde Deus é aceito como o único criador, é sacrílega qualquer tentativa de querer imitá-lo, ainda que na ficção científica ou na robótica inexistam intenções conscientes em tal sentido. Mas, materialmente é tudo diferente, ou seja, as coisas conforme vistas e experimentadas neste mundo concreto são tão diferentes quanto a ficção científica o é de uma simples fábula sobre coelhos e tartarugas:
“Na ficção científica, o robô é criado com a maior perfeição. Na vida real, porém , o que hoje chamamos de “robô industrial” não passa de um braço complexo e computadorizado, sem a menor semelhança com o ser humano. Fica muito mais fácil, portanto, visualizá-lo como máquina complexa do que como pseudo-pessoa, mais temido pelo efeito que produz sobre os empregos do que pela imitação sacrílega de nós mesmos.”
Cito, em título ilustrativo, dois contos presentes na coletânea de Histórias de Robôs. Um deles, Uma Lógica Chamada Joe, escrito por Murray Leinster em 1946, faz alusão à utilidade doméstica futuramente atribuída aos computadores. A “Lógica” de Leinster é um box metálico, no qual todo o conhecimento do mundo, da vida e de tudo é respondido por esta máquina que, de uma simples utilidade criada, Joe (nome atribuído ao primevo computador) reproduz-se e instala um caos social com respostas para perguntas como “qual a senha do banco tal” ou “como posso me tornar presidente”. Joe é um Google mecânico para o qual respostas têm de ser claras e precisas. Isso em 1946. Joe é temido e, por fim, proibido e trancafiado pelo próprio dono, o qual não sabe quando poderá utilizá-lo novamente, mas cogita. E assim se encerra o conto. Cerca de 40 anos depois surge os sites de busca: Google, Yahoo etc.
Outro, para acirrar ainda mais a influência de computadores e robôs sobre o que se chama de modernidade, é o conto Prova, da autoria do próprio Isaac Asimov no ano de 1946. Nele, há a insinuação de que um robô poderia ser capaz de governar um estado normal, com seres humanos normais, guiado pelas três leis da robótica (descritas acima) e cujos padrões éticos seriam bem mais sólidos do que os observados na maioria dos políticos convencionais. O conto narra uma história vivenciada por funcionários do governo de um Estado influente, pelo robô cuja similaridade com seres humanos é tamanha que lhe é permitido concorrer legalmente às eleições do governo (mas, imprecisa o suficiente para despertar a reação dos adversários) e, por último, a psicóloga de robôs, encarregada de provar se o candidato em questão é ou não um robô. Bem entendido: neste Estado, não se permite robôs candidatos a cargos públicos. Para não estragar o prazer de quem ainda irá se debruçar sobre o texto, não narro como tudo acontece, mas fica claro no decorrer do conto que o robô candidato às eleições é dado a uma sucessão de provas: “ele é ou não um robô?”. Ele, Robô, busca a todo tempo respeitar as leis asimovianas e ainda assim consegue, a todo custo, passar por um teste maior e “provar” ser um não-robô, mas a partir de uma atitude típica humana, simulada por um segundo robô, de modo que não se desrespeitassem quaisquer das tais leis da robótica (um código de ética indevassável). Curioso? Mais ainda é a reação da sociedade ficcional a uma criatura perfeita, incapaz de qualquer falha ética ou deficiência moral.
Para a complexidade de um ensaio acerca da ficção científica e dos indícios sugestivos da modernidade nas relações entre ficção, sociedade e literatura demonstrarei, em uma segunda parte deste ensaio, quais as questões acerca da racionalidade instrumental, da chamada dialética do esclarecimento e do conceito de modernidade como um risco constante, em que o fogo, mesmo sendo útil, traz por consequência o incêncio; a agricultura, prejuízos para o solo; o avião, a possibilidade do bombardeio aéreo; a tecnologia, a invenção de bombas de hidrogênio; além de computadores que operam máquinas para matar pessoas. Na ficção, tudo se expressa em um contexto específico da literatura de alguns autores. Mais especificamente, na fase em que o progresso tecnológico punha dúvidas sobre a natureza de nossas ações e criações, expressão de uma realidade palpável de artistas preocupados e engajados no próprio tempo.

Referência bibliográfica:
Asimov, Isaac. In Histórias de Robôs 3 v. /ET. Al./ ; tradução de Milton Persson. Os robôs, os computadores e o medo – Porto Alegre: L&PM, 2007.

OBS: Caso o texto seja aceito, encaminharei-o para o e-mail de Bruno R. R. Santos com todas as correções de itálico nas citações, ok?

João Matias.

domingo, 28 de agosto de 2011

MEMÓRIAS CAIXA BAIXA

CONCEITO

o primeiro tema pro poema primo
dito e feito deito e fito medito
mas nunca descanso é que meu mefisto
sempre me alcança o leito onde rimo

e no seu régio rito grandes são os mitos
o único jeito com o qual oprimo
com peito de aço pra subir ao cimo
a letra e o signo o som e o sentido

aí o poema desce horizontes morrem
e o vértice cresce em cristais não raro
numa vertigem cheia de imagens

como se sentisse os deuses meu faro
tão fácil a fala de santas mensagens
que o mais difícil nela é o paro


HAIKUZINHO BRASILEIRO

a princesa espera a foda
o dragão dorme e nada
o príncipe é fada


FÁBULA

repudio na república de sufrágio animal
duas raças ridículas de bicho safado
o cachorro preso e o solto veado
que com os seus rabos ambos cagam pau



quando entre as patas após algum dano
seus rabos não estão os abanam pro dono 

o preso atrás de comida ou de bônus 
o solto de ser comido pelo ânus



e entre os pupilos de papa-menino
há quem se intitule influente intelectual
mas apenas age pelo intestino

e à sociedade causa muito mal
eu que não sou crítico que lhes enojo opino
talvez por ser cabra macho neandertal


SACCULUM ES

me impressiona haver gente baixa
com a autoestima pra lá de lá em cima
medíocre pro qual não importa o clima
se for seu é ótimo o pior que se acha

tão grande a fé do filho da latrina
que nem Deus acredita que sua criatura micha
se pabule tanto do nada que publica
e Ele pio nem pio pro tudo que anima

me impressiona porque enquanto os maus
se empavonam e abocanham prêmios
alguns bons sem bico na sua boca nem sal

mas existem os deuses e adoro o Gênio
de gênio arrogante que se diz o tal
e mete o pau no pum do ladrão de oxigênio

terça-feira, 23 de agosto de 2011

poema para publicação no blog



Geração 666

Cria de repetidas relações incestuosas,
Da boca escrota jorra o mel do teu batismo,
A Coca-cola, sangue novo do teu Cristo,
Assim batiza, com arrotos, o seu filho.

O Shopping – Center, catedral do Bem Sagrado,
É o lugar para cantos e louvores.
As menininhas e os meninos sem pudores
Vão se entregando de pouquinho aos vendedores.

E no fim da missa ou do culto se quiseres,
Já vão em fila, todos prontos a comungar
O pão sagrado que sem gosto se embebe
De molho choco que os fazem vomitar.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

TROCA

Há de se perder tempo
para ganhar liberdade.
Olhos cristalizados
Saliva apurada pelo deleite.

Há de ser ganhar alegria
para perder insônia.
Cantos de boca
mastigam os dias futuros
antecedem escondidas dores.

Dê-me algo para entregar-me
Meu preço não é caro
mas é raro.
Passe a recompensa de uma mão para outra:
uma rouba
a outra doa.

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Revolução de 89 (segunda parte)

Pessoal, revisando o texto de 'A Revolução de 89', percebi alguns erros e fiz as correções necessárias. Peço a Bruno ou Félix a gentileza de fazer os acertos lá no blogue, caso a postagem de quinta (28/7) já esteja agendada.

***


A idéia surgiu no final do segundo bimestre. Antes das férias, a escola promoveria um evento sobre profissões e cada aluno teria que apresentar um trabalho sobre alguma delas. A maioria dos colegas levou duas ou três folhas de papel rabiscadas com alguma informação sobre o que é ser médico, advogado, engenheiro etc. Seguindo os conselhos que ouvira do meu pai, optei por tratar do jornalista e, como sempre tive certa atração pelo exemplo, bolei um jornal: o Diário do Pátio.
O Diário tinha quatro páginas. Na verdade, era uma imensa folha de papel, dobrada ao meio. Tudo muito improvisado, com notícias sobre o dia-a-dia na escola, algumas piadas e adivinhações para divertimento dos leitores e um artigo de opinião que eu conseguira arrancar da diretora. No alto da segunda página, meu pai me convencera a incluir um editorial, explicando-me que se tratava do posicionamento do jornal acerca de algum fato relevante para o público a que ele se destinava. Foi então que tive o estalo!
Não preciso explicar em detalhes por que meu trabalho chamou a atenção. Em meio a leituras monótonas de dissertações do tipo “o médico é o profissional que trabalha para salvar as vidas das pessoas” ou “ninguém pode vencer na vida sem a ajuda de um professor”, o jornal trouxe o viço da novidade e, quando os olhos caíram sobre o editorial, sobreveio o rebuliço. Foi Alan quem, para lá de ingênuo, meteu-se a ler em voz alta as primeiras palavras:

Para que um grupo precisa de um líder? Para ser seu representante! Para que o representante precisa existir? Para cuidar dos interesses do grupo! Para que serve um general no Instituto? Para ter uma patente, ganhar beijos de garotas bonitas na bochecha e... Nada mais! Então, para que o grupo de alunos do Instituto precisa de um general? Não precisamos de um general, mas de um líder!

Nesse instante, ele aproximou-se e puxou Alan pelo braço, interrompendo-lhe a leitura. Mas outra voz emergiu do pátio, continuando-a:    

Precisamos de um líder que seja a voz dos alunos e reivindique melhorias das aulas à diretora! Precisamos de um líder que movimente a vida dos estudantes com atividades mais diversificadas! Precisamos de um líder que promova a integração entre o Instituto e os alunos de outras escolas! Enfim, precisamos de um líder que deixe de lado patentes antigas e conduza nosso grupo para o tempo da democracia! 

O editorial ainda tinha mais umas cinco ou seis linhas; porém, ao fim do segundo parágrafo, ele já havia se transformado em manifesto. O burburinho começou a crescer, o clima de animosidade contra ele instalou-se e, com mais rapidez do que eu esperava, a revolução começou. Foi Gabinho, meu colega de classe, quem gritou:
— Abaixo o general!
No que foi seguido pela escola em peso:
— Abaixo o general!
Gabinho completou:
— E viva a democracia!
O alunado ecoou:
— Viva!
Então, ele tentou contornar a situação, subindo nos degraus de acesso à biblioteca e gritando para a multidão de colegas no pátio:
— Amigos! Amigos! Não entendo vocês! O que eu fiz de errado? Todos aqui reclamavam da falta de representantes de classe na escola e eu encontrei a solução. Vocês aceitaram que eu fosse o general! Por que essa revolta agora?! O que eu fiz?!
Seguiram-se instantes de silêncio absoluto.
— Estão vendo? Acalmem-se! Não entrem na onda de qualquer aproveitador! Eu não fiz nada! Nada que...
Então, Gabinho saltou do pátio para os degraus e, berrando mais alto que ele, atalhou-o:
— Exatamente! Ele não fez nada! O que ele fez até hoje além de ser o general e se achar o tal?! – uma onda de gargalhadas banhou o ambiente. Nada vezes nada! Um zero à esquerda! Então, abaixo o general!
E todos repetiam com entusiasmo:
— Abaixo o general!
Ao que Gabinho acrescia:
— E viva a democracia!
— Viva! – ouvia-se o eco.
Ele ainda tentou reassumir o controle da situação, contudo ninguém mais o escutava. A agitação se instalara e o conjunto das vozes em algazarra era ensurdecedor. Àquela altura, a diretora aparecera no pátio e já se informara do ocorrido. Ele tentou valer-se de seu apoio para acalmar os colegas e evitar que deixassem de reconhecê-lo como o general; contudo, ela permaneceu indiferente ao problema.
— Isso não me diz respeito. Essa tolice foi invenção de vocês! A mim, só interessa organizar essa bagunça!
Dizendo isso, a diretora ordenava aos berros que os alunos silenciassem e se pusessem em filas, por série, para retornar às salas de aula. Os professores vieram em sua ajuda. O esforço era vão. Ninguém obedecia a comando algum, apesar das ameaças de rebaixamento de nota e suspensão. Ele ainda recorreu à última tentativa de exercer sua liderança. Erguendo-se nos ombros dos dois ou três amigos fiéis que lhe restavam, esboçou no ar algum gesto de quem pedia atenção; mas um ovo acertou-lhe em cheio o nariz e ele foi levado às pressas – e aos prantos – para casa. Depois daquele dia, só retornou à escola para fazer as provas conclusivas do bimestre.

Maldição de Gogól e outros microcontos



IRONIA NO PROTESTO ANTISSEMITA

     Subiu pelado no monumento em memória às vítimas do Holocausto. No peito uma suástica. Braço direito erguido em saudação ao seu líder.
     Mas quando se desequilibrou, foi ao chão e bateu a cabeça numa quina do monumento, acabou socorrido e tendo a vida salva pelo rabino Azrael B. Absalom.

* * *

A NOVISSIMA ROUPA DO REI

     − Então, meu súdito, o que você achou do meu novo traje real?
      − Vossa majestade me perdoe, mas tenho a impressão de que existe um acessório sobrando.
     − Hum! Interessante. Qual?

* * *

ÚLTIMA LEMBRANÇA

     Com a forca no pescoço, segundos antes de afastar a cadeira e deixar gravidade e corda cumprirem suas obrigações, ela se lembrou do dia em que ele lhe jurou amor eterno. E da noite em que o flagrara na cama com a sua melhor amiga.

* * *

MALDIÇÃO DE GÓGOL

     Pingo a pingo, letra a letra, sua obra-prima foi tomando forma.
     Alguns dias depois de pronta foi lançada pelo próprio autor: ao fogo.

* * *

BOLETIM

     Sempre levava pau nas provas. Acabou engravidando do professor.

* * *

MASÔ

     − Não se preocupe. Eu sinto prazer com isso. Agora pegue esse chicote e faça o que eu te pedi.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Pedro pedreiro

Pedro pedreiro, por todos considerado um brasileiro exemplar, nunca chegou a ouvir a poesia que Chico Buarque fez para ele. Não chegou na sua casa um exemplar autografado do LP. A música não tocou no rádio do porteiro do prédio que Pedro pedreiro construiu e não morou. Ah, também pode ter até tocado na TV, mas Pedro pedreiro chegava com tanto sono latente, que depois da sopa de pedras com lingüiça, descansava suas pernas, seus braços, seus ouvidos para o dia seguinte. Que sempre se repetia como o apito cadenciado do trem: o dia seguinte já vem, já vem, já vem, já vem…

Pedro pedreiro nunca soube onde a música sobre sua pessoa tocou – (ou ainda toca?). (Vamos chegar a um acordo em relação aos tempos verbais, daqui pra frente, imaginemos que Pedro pedreiro ainda está vivo, mas por vias de dúvida, usaremos os pretéritos). A música tocou nas melhores rodas intelectuais, da bossa da ditadura nova, entre copos de uísques, camisas estampadas com Chê, sobre blazers blasés. Ao redor das vitrolas, prostrados como budistas em torno de um rinponchê. Lá chamavam Pedreiro, como se fosse um sobrenome de Pedro. Como se ele tivesse, por obrigação divina, essa missão desde o nascimento, mais do que congênita, missão hereditária. Um título monárquico às avessas, um pedigree de vira-latas. Herdeiro do clã dos Pedreiros. Eruditos da pá, do carro de mão, do manejo da brita, da terra, do barro e da colher, obviamente, de pedreiro.

Há quem diga que Chico voltou a falar de Pedro pedreiro noutra música, anos depois, Construção. Onde um operário, se não ele, muito parecido, cai de alto andar e interrompe o tráfego, num sábado, na contramão. Os motivos da queda não são óbvios, nem foram esclarecidos pelo autor, há quem diga que o dito cujo escorregou ao se escorar de mau jeito em umas das vigas de proteção. Devido a tantas vezes que fazia as mesmas coisas, seu automatismo faz com que ele perdesse a atenção. Outros afirmam que não, deram a isso uma explicação mais iconoclasta, inconformado com a atual situação em que se encontrava o país, e suas condições precárias de trabalho e salário, o dito cujo jogou-se para que assim percebessem, em seu último ato, que ninguém estava isento a culpa das atuais condições políticas e sociais do país. Argumentação de uns, conceitos doutros. Pode ter sido um Zé ou um Jão porque o certo é que Pedro pedreiro continuou vivo. Forte. Usando de sua força, o seu maior talento. Acordando cedo, não desistindo nunca de sua missão de mantenedor do lar, de fiel marido, realizando com distinção seu papel de exemplar brasileiro.

E será que no futuro (ou até agora) ainda irão lembrar do Pedro pedreiro, ou apenas da música que Chico fez para ele? Ah, ninguém ao fundo chegou a conhecer o Pedro pedreiro. Será que Chico conheceu algo do Pedro pedreiro? Foi na casa dele, bebeu de seu suco de manga, comeu do seu combinado feijão, arroz e galinha. Pedro nunca ouviu falar de Chico, então Chico não foi, mas bem que deveria ter ido, pois tudo deveria ser feito assim, em duas vias.

No futuro, isso é certo, Chico Buarque vai ser lembrado pela obra incontestável que construiu, anos após ano. Ortodoxo, cimentou tijolo em cima de tijolo, numa carreira com poucas falhas, com mínimos pontos negativos a serem apontados. A posteridade assim por ele será alcançada através de sua obra. Os vindouros que conhecerão suas músicas manterão Chico eterno. E assim, estará cumprida sua missão no terceiro planeta do sol para cá.

Pedro pedreiro quando sol se punha agradecia a Deus e a Nossa Senhora quando ele apontava na rua e estavam todos a espera dele. Eram dez filhinhos, muito pouco, quase nada, mas não tinham filhos melhores em nenhum lugar. Neste ponto do texto é inevitável a referência ao cancioneiro popular que Pedro pedreiro, talvez, sempre escutava nas folgas dos feriados, ou quando tinha tempo livre, ao ser dispensado nas várias crises econômicas nacionais. Pedro pedreiro era um popular. Um desses sem rostos que nunca foram à França, que nunca chegarão a ver a torre Eifel. “É alto que só”, diria. Vez por outra Pedro pedreiro ia ao Maracanã, e o mais engraçado é que assim, como Chico, ele também torcia para o Fluminense, mas nunca, nesses anos todos, chamaram o pedreiro para dar entrevista.

Mas deixando de lado a necessidade humana de atenção, e voltando aos dez filhinhos de Pedro pedreiro, é redundante dizer que eles cresceram, mas certamente com o tempo eles crescerem e por aí se espalharam. Um virou bispo que combatia os ídolos pagões e era idolatrado pelos fiéis, outro biscateiro que estava sempre trabalhando e sempre em casa. Outro vendedor de Viagra que tinha na cama uma mulher frígida. Outro bicho solto que com um revólver no coldre controlava daqui até o outro lado de lá perto de Centro.
Os restantes, viraram pedreiros. Meio que confirmando a tese daqueles: o clã dos Pedreiros não podia parar no Pedro pedreiro.

O pai passou aos que lhe acompanharam no batente os truques, os traquejos com a massa. Ensinou a sempre usar o capacete com a correia atarraxada, como guardar a marmita para a bóia não esfriar, como caminhar pelo andaime para de lá não se estrepar como fez um outro Zé ou Jão que outro dia foi ao chão. É vero que, assim como Chico, que em cada música gravada em estúdio barganhava sua imortalidade, na mente dos filhos, Pedro pedreiro se eternizava. Aquele, à larga escala, este à pequena. Contudo, o macro e o micro é a mesma coisa dependendo de quão perto ou quão longe se olha. Chico preferiu subir, como diz Fernando Pessoa, subir ao terraço e observar tudo de longe. Pedro, por sua vez, fez de um pedaço de lar sua missão. Aquele com o macro, este com o micro. E qualquer um que chegasse, com boa lupa, naquele núcleo familiar veria que através da comunicação oral Pedro pedreiro fomentou seus princípios, tijolo em cima de tijolo: seja um bom pai, proteja sua família e traga o pão suado para casa, mesmo que o diabo amasse depois que asse. Nem todos aprenderam, pois ainda está para nascer no mundo um ser que consiga, tudo. Porém sua missão nesse terceiro planeta estava mais que cumprida, sua semente perpetuada para os vindouros.

E se perguntam: Alguém sabe o paradeiro de Pedro Pedreiro? Virou concreto? Virou pele pra pandeiro? Voltando agora a indagar pelo paradeiro do Pedro pedreiro. Pelas contas, ele já deve ter aposentado, por sorte, morto, enterrado embaixo de uma laje de pedra. Entretanto tanta coisa pode ter acontecido com Pedro de 1965 para cá que podemos simplesmente inventar uma possibilidade para assim satisfazer a necessidade de uns que prezam por uma segura leitura linear com começo meio e fim (e temperada com uma boa lição de moral). Então daremos um fim ao Pedro pedreiro, um brasileiro: ele sucumbiu, era de noite, em um sonho de fevereiro. Fim.

Mas torna-se inconcebível que o Pedro pedreiro vá embora assim, no último trem pelo qual ele esperou a vida inteira – por inferno ou céu, sabe-se lá – e que só seja visitado no cemitério local nos dias de Finados. Correndo o risco de cair em falácias com o que foi falado assim, querendo caracterizar a Pedro o status de um imortal, que é o que fazem com os grandes poetas, escritores, compositores, é inevitável também ponderar outra possibilidade:

Pedro pedreiro nunca envelheceu, durante essas décadas, nunca faltou a um dia de batente. Está lá, no mesmo posto, na mesma obra, com o mesmo salário, come a mesma comida. Conjectura o mundo, ignora a ordem dos planetas, a ordem mundial e sua própria ordem. Pedro pedreiro faz a mesma rota diária de casa para o trabalho e vice-versa. Vai ver se um dia um de nós possamos nos esbarrar com ele. No meio do caminho sempre tem um Pedro pedreiro. Sempre tem um Pedro pedreiro. O tempo todo.